domingo, setembro 24, 2006

Veja - André Petry

Um domingo espanhol

"Quando o eleitor percebe que está sendo vítima de manipulação, que o governante é um enganador, levanta-se – e usa as urnas para mandar seu recado. Num bordel, isso não existe"

Em março de 2004, faltando poucos dias para a eleição na Espanha, aconteceu um terrível atentado que matou 191 pessoas em Madri. Logo o governo conservador de José María Aznar tentou manipular o episódio eleitoralmente – já sabia que as bombas eram obra do terrorismo islâmico, mas mesmo assim difundiu a falsa informação de que eram coisa de terroristas bascos. Achava que, sendo o atentado obra dos separatistas bascos, seu rival, o socialista José Luis Rodríguez Zapatero, sofreria prejuízos eleitorais. Antes do atentado, as pesquisas, inclusive, davam vantagem aos partidários de Aznar. O mundo lhe parecia perfeito. Mas a tática de ludibriar o eleitorado espanhol revelou-se um rombo pela culatra: os espanhóis descobriram a manobra e viraram as pesquisas. Zapatero foi eleito. Está no poder até hoje.

O episódio serve para mostrar a diferença entre um país e um bordel. Um país é assim: quando seu eleitorado percebe que está sendo vítima de manipulação, quando tem evidências de que o governante é um enganador, levanta-se – e usa as urnas para mandar seu recado. Num bordel, isso não existe.

O escândalo do dossiê é uma excelente oportunidade para o eleitorado brasileiro mostrar que vive num país. Nem precisa virar a eleição. Basta que, com seu voto, provoque a realização de um segundo turno na eleição presidencial. Basta que os eleitores envergonhados, aquela massa com pleno acesso à informação que vota em Lula mas não conta a ninguém, façam uma concessão ao tempo e uma homenagem ao debate. A esta altura, é o mínimo que um país, um país de verdade, poderia fazer.

Isso não significa que Lula não possa ser reeleito. Pelas regras do jogo, é claro que pode, desde que tenha mais votos que seu adversário. Talvez até venha mesmo a ser reeleito, a julgar pelo que informam as pesquisas. A questão é que um segundo turno, mesmo que não mude o resultado final da eleição, mesmo que acabe dando vitória a Lula e sacramentando a derrota de Geraldo Alckmin, mesmo assim, ajudaria a deixar o Brasil mais parecido com um país decente, no qual a sociedade pergunta e o candidato responde.

O segundo turno é entre dois candidatos e, nessas condições, fica mais difícil para qualquer um deles negar-se aos debates na televisão. Assim, vira uma chance de diálogo com o país: o presidente poderia explicar muitas coisas do passado e algumas coisas do presente. Se quisesse, numa resposta só, falar do passado e do presente, poderia explicar por que todo escândalo produzido pelo gangsterismo petista sempre chega às vizinhanças de seu gabinete no Palácio do Planalto. Por quê?

O segundo turno ainda tem a vantagem de evitar o triunfo da arrogância. Resolvendo a parada já no próximo domingo, Lula talvez se sinta revigorado para retomar a defesa da tese de que tudo – o mensalão, os bingos, o lixo, o caseiro, as cartilhas, o dossiê... – não passou de conspirata da elite.

O Brasil ganharia se fizesse um domingo espanhol.

Veja - Diogo Mainardi

IstoÉ, a mais vendida

"Fim de agosto. Base aérea de Congonhas. Lula se encontra com Domingo Alzugaray, dono da IstoÉ. O encontro está fora da agenda presidencial. Alzugaray se lamenta dos problemas financeiros da revista. Lula pergunta como pode ajudá-lo..."

Fim de agosto. Base aérea de Congonhas. Lula se encontra com Domingo Alzugaray, dono da IstoÉ. O encontro está fora da agenda presidencial. Alzugaray se lamenta dos problemas financeiros da revista. Sabe como é: salários atrasados, contas penduradas com o fornecedor de papel e com a gráfica. Lula pergunta como pode ajudá-lo. Alzugaray sugere o pagamento imediato de uma série de encartes encomendados pela Petrobras. Valor total: 13 milhões de reais. Lula promete se interessar pelo assunto. Duas semanas depois, a IstoÉ publica a matéria de capa com os Vedoin, incriminando os opositores de Lula.

Quem relatou o encontro confidencial entre Lula e Alzugaray foi o editor da sucursal brasiliense da IstoÉ, Mino Pedrosa. E quem o relatou a mim foi o PFL. Creio que seja verdade. Creio em tudo o que contam de ruim a respeito de Lula. O que posso garantir é que a imprensa lulista funciona assim mesmo. O presidente manda. O jornalista publica. O contribuinte paga. Aborreci um monte de gente para tentar descobrir se a IstoÉ foi socorrida pela Petrobras nas últimas semanas. Ninguém soube me dizer. Os gastos em publicidade da Petrobras competem somente a ela mesma. O presidente manda. O jornalista publica. O contribuinte paga. Mas nunca fica sabendo onde foi parar o tutu. É o esquema perfeito. A IstoÉ foi acusada por seu próprio editor de ter vendido a matéria de capa com os Vedoin. Quem forneceu o dinheiro? Meu conselho é perguntar ao diretor de marketing da Petrobras, Wilson Santa Rosa. Ele é homem da CUT, como muitos dos que foram pegos em flagrante nessa trama golpista. E é amigo de José Dirceu. Sempre desconfio de quem é da CUT e amigo de José Dirceu.

Um dos principais petistas implicados na compra de matéria da IstoÉ foi Hamilton Lacerda. Ele era coordenador da campanha de Aloizio Mercadante. Foi afastado depois de admitir que negociou a entrevista com os Vedoin. O repórter Ricardo Brandt descobriu que Lacerda "atuou como intermediador de contratos da Petrobras com órgãos de imprensa". Esses fatos esclareceriam o que aconteceu desde o encontro de Lula com Domingo Alzugaray na base aérea de Congonhas até hoje. Lacerda era o responsável pela propaganda eleitoral de Mercadante. A produtora que faz a propaganda eleitoral de Mercadante é a VBC. VBC... VBC... O nome é familiar. É a mesma VBC que se meteu no escândalo do lixo de Marta Suplicy? É a mesma VBC que produziu farto material de propaganda da Petrobras, incluindo um documentário de três horas sobre o Pantanal? Sim. É a mesma VBC. Esse é o único lado bom do PT: seus enredos criminosos sempre fecham. Tanto que, nesse episódio da matéria da IstoÉ, já apareceram pessoas envolvidas com Celso Daniel, valerioduto, diretoria do Banco do Brasil, ONGs do Ministério do Trabalho, contratos de publicidade, Delúbio Soares, sanguessugas. De um jeito ou de outro, tudo se encaixa. Tudo remete a Lula e a José Dirceu.

Lula ainda pode se eleger. No segundo turno. Se ele for eleito, cedo ou tarde seu mandato será cassado. Porque sua campanha usou dinheiro ilegal. Nos últimos anos, peguei no pé dos jornalistas alinhados com o PT. Foi burrice minha. A imprensa lulista é o melhor produto nacional. Primeiro derrubou Antonio Palocci. Agora vai derrubar Lula. Alguém aí quer me comprar?